Poeira, estrada. Deserto de vontades soltas pela areia perdido, sem dono. Veloz, o Dodge Challenger V8 negro corta o vento sem medo, imponente, abrindo caminho para o Ray-Ban arranhado, espelhando o destino final: o horizonte sem fim. Chapéu de Cowboy, violão no banco de trás. O rádio quebrado não repete mais a fita k7 antiga, mas 'born to be wild' continua a ecoar em sua mente, empolgando um leve sorriso desconfiado, seguido de um suspiro pretensioso de vontade contida (possuí-la novamente). Lembra da noite passada, mexe no cabelo dela deitada em seu peito, e outra vez a memória da sua experiência volta a mordê-lo. Começou como qualquer outra em sua vida, sem motivos, sem intenção. Estava de viagem sem rota final, fugia da cidade, do seu passado, e tentava despistar tudo com a poeira da estrada, se iludir, desfazendo as suspeitas. O cigarro chegava ao fim, e em sua última tragada avistou a próxima parada. Era mais um daqueles postos de estrada, sem muita coisa, sujo, cansado dos viajantes. Abraçado por sua jaqueta antiga, companheira de inúmeras ousadias, ele, caminhou com seu estilo badguy até a porta do bar ao lado. Entrou de cabeça baixa, preferia não ser percebido, não era de se expor, aprendeu isso com a vida, não acertava no amor, optou por ser mais um lobo solitário da noite.
- O que vai querer?
- Uísque, duplo. Sem gelo.
- Hm... Alguma preferência?
- Jack Daniel's.
- Hm... Algo mais?
- ...Lucky Strike, red.
Balançando as chaves, saiu sem olhar pra trás. Apanhou seu isqueiro Zippo prateado, e fitando o seu destino, acende outro cigarro. Parado, ali ficou por alguns minutos. Processando a fumaça densa, soltando devagar, destilava seus medos e suas aflições. Pensava em qual seria o próximo passo, a próxima conquista. Então uma voz leve e desconhecida apanha sua atenção:
- Hey, estranho. Tem um desses pra mim?
Escuta, mas não responde. Permanece deitado na parede, com sua pose solitária. O olhar, fixo no horizonte, não cede a curiosidade de saber de onde vem a voz. Ela se aproxima, enfrenta seu olhar e pergunta novamente. Ele, admirado, achou incrível aquele insulto, aquela invasão. Sem desviar daquele primeiro contato súbito com a estranha garota, puxa a carteira já amassada e oferece com cautela, como quem não quer se entregar de vez. Aproveita o momento em que ela, sorrindo, pega o cigarro. Calça jeans gasta, Ray-Ban prateado pendurado na gola da blusinha branca, ele gosta do que repara com audácia. Não agüenta e acaba deixando a curiosidade guia-lo:
- Como se chama?
- Estrada, e você?
- Fuga.
- ... (ela, deixa escapar um sorriso)
- ... (ele, deixa escapar um suspiro)
- Porque esse nome? Foge de algo?
- Sempre. Procuro o novo, fugindo do passado. Não me prendo a nada e nem a ninguém, prefiro assim, sem rumo.
- I like that.
- Hm... E você, estrada?
- Gosto de levar sempre algo comigo, me acompanhar pela estrada da vida, gosto de guiar sonhos e fugas. Prefiro assim, ser levada pelo momento, pelo agora.
O cigarro acaba, ele agarra a mão dela e puxa. Ela, indomável, resiste. Olhares se encaram, trocam milhares de pensamentos em poucos segundos. Se aproxima, e com cuidado agarra sua nuca, soltando devagar sua última carta.
- Vem comigo.
- Pra onde?
- Conquistar a noite. Arriscar, ousar. Viver a vida.
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Show me how to live
Postado por
John Kiev
às
08:52
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2 comentários:
i like that, babe.
just keep on shining on my life.
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