quinta-feira, 6 de março de 2008

Faquir amargo.


Começa cambaleando pela rua, segue reto sem medo. Dobra a primeira esquina e cego leva os braços a cara suada de mais um dia de trabalho pálido. Sua mente, em caos, nem sente mais o sabor de ver as cores. Olha para trás sem parar o passo, e não vem carros. Sua caminhada torta e confusa no cimento amassado pelo sol de meio-dia é curta porém longa. Em sua mente diversas palavras surgem, brotam e jorram de quem um dia já pode brincar com elas (no silêncio do nada). Agora, sem tempo, corre e tenta organiza-las sem parar, sem parar. Retorna a realidade de poucos em poucos segundos, a necessidade de não tropeçar é total. Não pode mais se dar o luxo de errar como as crianças, nem como os bêbados da cidade. Sua saúde agora é preciosa, e dela não quer mais saber. Ela a deixou, fugiu sem aviso prévio, muito menos trancou a porta ao sair. E assim, com a porta aberta, a casa ficou jogada ao nada, escancarada, dando lugar aos mendigos moribundos e vírus errantes. Seu corpo um templo de nicotina, álcool, e café. Seus dias de trabalho encaixavam uns nos outros já o chamando para a derrota, e seus pulmões não paravam de gritar por ar puro. Coisa rara nessa cidade, a idade não nega.

- três e vinte e cinto, mais alguma coisa senhor? Pergunta a mesma vagabunda de sempre do posto mais próximo. Apanha seu cigarro pesado e sujo de devorar sonhos. Põe mais uma vez (e como sempre há de fazer) na boca, suga-o e deixa entrar.

Agora já é tarde, sempre lhe diz em tom confortante, como uma palmadinha nas costas de um pai envergonhado acalentando o erro do filho devasso. Ajeita a camisa já sem jeito, manchada de café e formulários perdidos. Um pensamento perdido o entorna e faz vomitar choro. Suas costas não são mais tão firmes. E outro cigarro vem ao rosto empurrar a dor de volta a dentro.

Sempre foi sonhador. Pequeno, já pensava em ser herói, e aos quinze achava ser especial. Depois do primeiro dia de trabalho e a cuspida da realidade nos olhos novos de criança, nunca mais enxergou sonhos. O coração que antes sonhava com revoluções, filosofias e teorias de como a vida pode ser imensa e gorda de felicidade, agora é apenas granulado de memória e saudade. Tornou-se um faquir, um louco atrás de jejuar sonhos e nunca mais devora-los como antes, esquecer de toda e qualquer forma fora da realidade prostituta que havia lhe possuído. Um faquir amargo, demente de seus próprios prazeres de fuga. Cria personagens tolos, poesias de guardanapo barato em mesa de bar. A fantasia de bossa nova não passava de mais uma bebedeira casual. Agora é tarde, muito tarde pra sonhar. Não havia mais fé, nem esperança. A realidade bruta o mordia todos os dias, sangrava, e sem sangue ninguém luta. E assim ficava, se permitia sobreviver assim, banhado a nicotina, álcool, café e personagens de fuga.

Jogou fora seu último cigarro e saiu amargo pela calçada qualquer, tropeçando de cara. Como um qualquer morreu, sem chances de se tornar livro, se tornar sonho. E como um qualquer, tornou-se mais um a atrapalhar o trânsito.

terça-feira, 4 de março de 2008

Love.


Love.
Upload feito originalmente por Jorge Nunes

Love is passion, obsession, someone you can't live without. If you don't start with that, what are you going to end up with? Fall head over heels. I say find someone you can love like crazy and who'll love you the same way back. And how do you find him? Forget your head and listen to your heart. I'm not hearing any heart. Run the risk, if you get hurt, you'll come back. Because, the truth is there is no sense living your life without this. To make the journey and not fall deeply in love - well, you haven't lived a life at all. You have to try. Because if you haven't tried, you haven't lived.

[William Parrish] from the movie, Meet Joe Black (1998)

Love; you and me.