sexta-feira, 27 de junho de 2008

atrasado.












Todos os dias acordo atrasado, engulo o choro e visto a armadura pra enfrentar o dia. É difícil como o tempo luta contra você, como é difícil ser malandro nessas horas e conseguir o que quer. E o mesmo tempo te corta em mil pedacinhos, e cada pedaço é uma dor diferente. Tem a dor da saudade, tem a dor da raiva, tem a dor da rejeição, tem a dor da solidão, tem a dor do orgulho, tem a dor do choro, tem a dor do perdão, e diversas outras que me completam e me descompletam a cada dia. Minha armadura não é das melhores, talvez não encaixei ela bem, fica caindo.. Vai ver, nem quero. Fico me enganando, lutando comigo mesmo, pois, uma parte de mim diz pra ficar e tentar até o último fio de esperança que corre em meu corpo, e outra parte de mim diz pra esquecer a todo custo e viver minha vida sem me gastar mais com ela. Ela. Ela me completa, e sem ela eu sou um anormal. Não consigo viver em paz, não consigo sair, não consigo trabalhar, não consigo nem mais ouvir minhas músicas favoritas. Falta-me algo. Falta-me crer que acabou, ou, falta-me a solidão companheira, e não esse vazio que ela faz.

Parece até que a esperança e a saudade se uniram para me surtar aos poucos, como quem sangra todo dia cortes rápidos e profundos, apunhaladas da consciência, uma abstinência daquele meu vício chamado amor. Me entreguei, ela sabe. Amei, ela sabe. Não quero ir embora, ela sabe. Ela sabe e o que me dói mais é porque ela sabe. Ela sabe e não faz nada além de chorar parada. Chora e diz adeus, diz que me ama mas não me quer mais, me mostra a felicidade a dois e prefere ficar só, me desperdiçando assim pelas noites como um boêmio perdido. Nem o álcool ao abuso, nem o cigarro ao excesso, nada me trouxe ela de volta, nem trará, e ela sabe disso. Ela sabe e prefere ficar só, lendo livros, saindo por ai, procurando nada, e sendo procurada por outros. Ela acha bonito esse final trágico, talvez eu também ache, mas não queria sentir tanto. Dias de fúria, dias de insanidade, e eu grito sufocado:

- Saia da minha mente!!! Saia agora!!!

e ela volta, volta e volta mais, tudo em forma de lembranças. Passear de ônibus pelo Leblon, brigar no Cristo, ouvir chico pelo calçadão. Comer ruffles com água mineral, comprar blusas alternativas, dançar like a bitch em boates caras, e depois dormir juntinhos. Ela volta sempre assim, como fotos vivas em movimento na minha cabeça. E eu não agüento mais o carimbo estampado em tudo: acabou. acabou.

Juro que tento. Todo dia é uma luta, as vezes mais fraca, as vezes mais forte. E assim vou vivendo, sem vida, sem cor. Eu não quero aceitar, sabe? Alguém sabe? Bom, acho que não... Todos me dizem: normal, vai passar, o tempo cura tudo. Tempo? Ele é o pior. Cruel. Afoga e assassina tudo que eu senti e criei. Lutei tanto para um amor estável, uma relação boa, uma companheira, uma amiga, uma pequena. E agora é com o Tempo que devo me ajoelhar? É para o tempo que devo me curvar e implorar sanidade? Implorar o remédio do esquecimento do amor não correspondido? Não.. Prefiro ser diferente. Acordo todos os dias atrasado porque não quero acordar. Sonho, e no sonho me encontro com ela. Converso, abraço, beijo, e tudo posso. Conto meu dia, conto minhas aflições, ela me abraça, passa a mão em meu rosto e me cura de tudo com seu sorriso lindo e suas palavras que confortam 'vai dar tudo certo'. E lá ela ainda é morena, lá ela ainda é a minha fofinha. E rodamos e rodamos pela noite, bebemos, fumamos, fazemos tudo como antes.. E todos os dias é clímax, e tudo é como deve ser, sem medo, sem cansaço, sem frustração, sem decisão egoísta, sem erro. E nos sonhos vou vivendo o meu amor.. Até o dia que eu canse, e até o dia que ele esgote, onde já estaremos vividos, e que a Espanha já não seja mais um objetivo perdido, onde eu já tenha vivenciado nosso amor por completo, noite após noite de sonho. E assim, nunca mais me atrasarei pra viver. Acordarei no horário, pois não precisarei mais me esconder em sonho. Voltarei a me erguer e ser apenas eu. Um tolo qualquer buscando um romance intenso para aquela que souber fazer sem desistir.

Um comentário:

Temporal disse...

Amigo, a batalha sempre deixa cicatrizes mesmo. O importante é entender que você não precisa vestir sempre a armadura. Se ficar sempre protegido nunca vai sentir dor, e aí não vai saber a verdadeira importância que a dor traz.
Caminhe despido e se descubra.
Força na caminhada.