
Uma queda, tropeço inusitado, voa e leva a cara ao cimento da calçada. Adrenalina, susto, medo da rapidez que a coisa aconteceu. Levanta-se num pulo, procura em todas as direções o que não sabe bem o que procurar. Respira, pensa coisas sem sentido e tenta lembrar o que houve.
- beijei o chão, e ninguém percebeu. Pensou calado.
Limpa o rosto, senta na graminha e recolhe o brinquedo quebrado (as peças faltam). A gota viscosa escorrega do joelho lentamente, sem perceber anda em busca da mãe. Então o choro, seu joelho rasgado arde com o vento. E assim corre mais, tenta fugir da dor. Abraça com força, grita, esperneia, se joga ao chão novamente e morde o pouco do vestido estampado que consegue alcançar da mãe. Ela tenta recolher o desespero e joga-lo longe da criança, da beijinho na testa, passa água no joelho, cuida como só uma mãe consegue cuidar do filho que foi a rua e se danou demais. A mãe tentando disfarçar a dor se joga na grama verde do jardim, faz coscas no filhote e puxa uma brincadeira de manhas e carinhos. A criatura escandalosa já começa a se acalmar, e o choro então abre espaço para os pequenos soluços ritmados e o dedo na boca.
- tá doendo mamãe. Faz parar, faz.
Na calçada suja, o menino sorridente que corria sem medo, que ganhava o mundo sem limites, correndo, buscando, curioso como quem nunca sentiu dor na vida, fica ali. O tropeço que o momento da queda causou agora faz parte de sua vida. Talvez um dia lembre disso, talvez não. As marcas ficarão lá para lembra-lo de olhar sempre onde pisa, ter cuidado com sua mania em correr demais por ai, e de sua liberdade esboçada em sentimentos de aventura e sonhos. As marcas ficarão lá para lembrar que foi vivo demais, que corria como o vento, que não lembrava da hora de dormir, e por alguns instantes não valia a pena pensar no pior, e sim na beleza da vida. Cicatrizes farão parte em um corpo crescido, serão esquecidas, perdidas no meio de tantas outras adquiridas. Escondidas em meio a ternos, livros, abuso e dinheiro. Sujeira da velhice na pele que esconde aquele moleque. Apenas marcas de algo que doeu e já nem se lembra mais de como doía infinitamente, dor de dor nova.
Hoje, talvez nem se lembre mais do beijo da mãe na testa e a voz suave tranqüila dizendo:
- vai passar meu amor, vai passar.