terça-feira, 5 de agosto de 2008

A cicatriz.















Uma queda, tropeço inusitado, voa e leva a cara ao cimento da calçada. Adrenalina, susto, medo da rapidez que a coisa aconteceu. Levanta-se num pulo, procura em todas as direções o que não sabe bem o que procurar. Respira, pensa coisas sem sentido e tenta lembrar o que houve.
- beijei o chão, e ninguém percebeu. Pensou calado.

Limpa o rosto, senta na graminha e recolhe o brinquedo quebrado (as peças faltam). A gota viscosa escorrega do joelho lentamente, sem perceber anda em busca da mãe. Então o choro, seu joelho rasgado arde com o vento. E assim corre mais, tenta fugir da dor. Abraça com força, grita, esperneia, se joga ao chão novamente e morde o pouco do vestido estampado que consegue alcançar da mãe. Ela tenta recolher o desespero e joga-lo longe da criança, da beijinho na testa, passa água no joelho, cuida como só uma mãe consegue cuidar do filho que foi a rua e se danou demais. A mãe tentando disfarçar a dor se joga na grama verde do jardim, faz coscas no filhote e puxa uma brincadeira de manhas e carinhos. A criatura escandalosa já começa a se acalmar, e o choro então abre espaço para os pequenos soluços ritmados e o dedo na boca.
- tá doendo mamãe. Faz parar, faz.

Na calçada suja, o menino sorridente que corria sem medo, que ganhava o mundo sem limites, correndo, buscando, curioso como quem nunca sentiu dor na vida, fica ali. O tropeço que o momento da queda causou agora faz parte de sua vida. Talvez um dia lembre disso, talvez não. As marcas ficarão lá para lembra-lo de olhar sempre onde pisa, ter cuidado com sua mania em correr demais por ai, e de sua liberdade esboçada em sentimentos de aventura e sonhos. As marcas ficarão lá para lembrar que foi vivo demais, que corria como o vento, que não lembrava da hora de dormir, e por alguns instantes não valia a pena pensar no pior, e sim na beleza da vida. Cicatrizes farão parte em um corpo crescido, serão esquecidas, perdidas no meio de tantas outras adquiridas. Escondidas em meio a ternos, livros, abuso e dinheiro. Sujeira da velhice na pele que esconde aquele moleque. Apenas marcas de algo que doeu e já nem se lembra mais de como doía infinitamente, dor de dor nova.

Hoje, talvez nem se lembre mais do beijo da mãe na testa e a voz suave tranqüila dizendo:
- vai passar meu amor, vai passar.

2 comentários:

Elaine Pacheco disse...

Realmente, as cicatrizes estão estampadas na nossa carne para dizer que vivemos. Doces travessuras as da infância.

suspiro disse...

tem certas horas que um "vai passar, vai passar" é tão bom. melhor ainda quando a gente acredita mesmo que vai passar..

e ai, meu DDA apita. já me lembro de Chico: vai passar um samba na avenida popular. :B