quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Miúcha e os Cariocas - Show único da verdadeira Bossa Nova

Ambiente antigo, um tom de boemia atrasada me preenche a mente, mas logo percebo que não é meu este tempo que já foi tão bom. Centro da cidade, Teatro José de Alencar. Duas cortesias me surgem sem motivos, e sem motivos estava lá na bela e já cansada entrada deste último suspiro de bossa nova que poderia presenciar ao vivo. Algumas madames corriam dos cambistas, enquanto casais de velhinhos apenas mantinham a pose e o andar cuidadoso. Pipoqueiros faziam a abertura, e dentro apenas um teatro velho onde não me encontrei, sentei nas cadeiras antigas e me senti perdido em outro tempo que não foi meu. Ah, Bossa Nova ao vivo, seria mesmo possível?

As luzes se apagam, percebo um piano, logo o baixo forte e delicado, o violão sambado e a bateria sutil: a banda começou. Aquele cenário alvo e negro com lustres coloridos e detalhes listrados me lembraram um pouco o Rio. Era apenas um detalhe que já não me importava, a projeção me colocou em lembranças maiores, fui voando na saudade e me encontrei novamente com o calçadão de Copacabana, as ruas do Leblon, e a brisa da bossa nova desse meu Rio. Então vou e volto, me encontro ali na platéia ou no pensamento profundo. A voz suave toma conta do teatro e aplausos preenchem todo o resto, é ela que sobe ao palco de forma única, viva, quase posso enxergar Vinícius e Jobim ao lado, e a voz realmente é dela, é de Miúcha.

O show segue, sua graça é demais, nos intervalos dos aplausos e do piano uma história era contada, sobre Jobim, sobre Baden, sobre seu irmão Chico, sobre o grande amigo boêmio e poeta Vinicius de Moraes - Saravá - que lhe foi tão presente nos bares da lapa e na noite de Copacabana. Que coisa linda ouvir dela, ouvir de alguém que realmente estava lá, abraçou e beijou eles, os criadores da Bossa Nova pura, e dela ouvimos, rimos, nos emocionamos e principalmente cantamos junto.

Mas devo dizer que aquele sorriso simpático, de música em música, me lançava adagas afiadas em meu peito, me cortando letra a letra, tom a tom, nota a nota. Sangrei por dentro, não minto, parte de mim chorou ao ouvir tanta música linda junta, tanta dor, tanta cor, tanto amor. E assim fui, sangrando durante o show, me emocionando, e absorvendo tudo que podia, agarrado no momento para nunca mais esquecer, para tentar esquecer de tudo, para tentar voltar por um minuto pra esse tempo que nunca foi meu. Ah, Bossa Nova.

E além de tudo, tive o grande prazer de apreciar Os Cariocas e seus vocais anos 50. Foi tudo um grande espetáculo pequeno e profundo, que desejava nunca acabar. Gente Humilde, Eu te amo, Águas de Março, Wave, Berimbau, Ela é Carioca, Pela luz dos Olhos Teus, Vai Levando, Samba do Avião, Desafinado, Minha Namorada, facadas e apunhaladas no peito, sangrei e cantei, uma a uma, e então o Bis final, o inesperado Bis que me pegou pelas costas já indo embora, me jogou na cadeira novamente, e me deixou sem opção: cantei cada palavra com a mão no coração pra não deixar cair..

Vai minha tristeza, e diz a ela que sem ela não pode ser, diz-lhe, numa prece Que ela regresse, porque eu não posso Mais sofrer. Chega, de saudade a realidade, É que sem ela não há paz, não há beleza É só tristeza e a melancolia Que não sai de mim, não sai de mim, não sai Mas se ela voltar, se ela voltar, Que coisa linda, que coisa louca Pois há menos peixinhos a nadar no mar Do que os beijinhos que eu darei Na sua boca, dentro dos meus braços Os abraços hão de ser milhões de abraços Apertado assim, colado assim, calado assim Abraços e beijinhos, e carinhos sem ter fim Que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim. Não quero mais esse negócio de você longe de mim...

Aplausos de pé!


Show maravilhoso, incrível, espetacular, emocionante, forte, suave, lindo, delicado, apaixonante e principalmente: Legítimo.

"Que isto é Bossa Nova, isto é muito natural O que você não sabe nem sequer pressente É que os desafinados também têm um coração"



* Miúcha foi casada com João Gilberto, é irmã de Chico Buarque, e amiga de Tom Jobim, Baden Powell, Toquinho e principalmente do grande Vinicius de Moraes, vivendo intensamente na Bossa Nova.


Um comentário:

Elaine Pacheco disse...

Descrição cheia de emoção e penar. É o garoto Bossa Nova. =)